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11/12/2011 / nolimiar

Feito pra caber no mar

Releio a Experiência de Ralph Valdo Emerson, poeta e ensaísta americano (1803-1882), e retenho, entre as muitas passagens desse pequeno ensaio escritas com tanta sabedoria, apenas esta que me toca mais particularmente: “Fica sabendo que tua vida é um estado fugidio, uma tenda para uma noite, e, com ou sem saúde, termina tua tarefa. Estás enfermo e não ficarás pior, e o universo, que te quer bem, ficará melhor. (…) Que baste, para a alegria do universo, que não tenhamos chegado a uma parede, mas a intermináveis oceanos.” Sim, Emerson, sim, queridos parceiros Marcelo e Zé Miguel: a gente é feito pra acabar, a gente é feito pra dizer que sim, a gente é feito pra caber no mar e isso nunca vai ter fim…

09/12/2011 / nolimiar

O cheiro da amendoeira

Drummond criou a expressão “fala, amendoeira”, à qual Guimarães Rosa retorquiu com “cala, amendoeira”. Mas o que sempre me tocou, antes de conhecer o tema, antes mesmo de identificar essa árvore, também chamada chapéu-de-sol, é o cheiro dela. Cheiro que de início eu nem sequer associava a uma árvore, mas a alguma emanação misteriosa da terra. Porque a amendoeira, comum em cidades litorâneas tropicais como Rio de Janeiro e Santos, é rara em Porto Alegre. E mais raro ainda é localizá-la quando, só de vez em quando, exala.

Acontece no verão ou em dias quentes. Vou andando pela rua e de súbito o cheiro vem (de onde? de perto? de longe?) e me impregna com seu teor de resina, que não sei se é da folha, do tronco ou do fruto. Olho ao redor e não vejo a árvore. Mas imediatamente reconheço esse cheiro a uma só vez terroso, tenaz, indomesticável. Aspirá-lo é sentir um quê de selvagem no ar civilizado. Assim: feito a fórmula química de uma experiência total e única, quase inacessível às palavras, pura sensação e pura evocação, que fala e cala. E experiência sempre breve, da qual espero apenas que volte a acontecer.

07/12/2011 / nolimiar

Dezembro

Alta luz, nuvens palpáveis, o cheiro e o sabor da manga, do melão gaúcho. E o canto matutino da cigarra anunciando o fim das aulas, o tempo todo para os brinquedos. É assim que os meus sentidos reconheciam e reconhecem ainda este mês, quando o ano parece atingir o esplendor antes de morrer.

05/12/2011 / nolimiar

Pange, lingua

Comentando os sentidos do verbo latino pangere (fincar, pregar, prometer, ajustar, convencionar, passando daí a escrever, consignar, louvar, sentidos de que derivam pagus, o limite fixado na terra e a página, e também paganus, o aldeão e o pagão), Michel Serres observa que esta frase de um hino medieval – Pange, lingua, gloriosi corporis mysterium (Canta, ó língua, o mistério do corpo glorioso) – começa com uma declaração pagã que vem antes da língua, antes do Verbo que revestiu universalmente as páginas, fazendo a paisagem e o pago recuarem a um lugar anterior à língua, lugar da antiguidade propriamente. Mas hoje começamos a perder a linguagem na codificação da ciência, diz ele, e “a antiguidade [dos sentidos, da paisagem] volta a aparecer sob o revestimento transparente do Verbo”.

02/12/2011 / nolimiar

Manolo

Conheci Manolo Elias em 1970, em São Paulo. Ele chegava a essa cidade sem projeto definido ou, pelo menos, nunca falou do que fazia ali e que supus relacionado a alguma espécie de clandestinidade. Reservado, de aspecto soturno, mas com rompantes de entusiasmo, sua origem mesma é obscura. Nascido na província de Sacramento, no Uruguai, não conheceu o pai e perdeu a mãe muito cedo. Em Montevidéu tentou sem êxito, entre estudos abandonados, participar de uma expedição ao Polo Sul. Nessa existência sem rumo, pude perceber apenas um gosto pelas aventuras marítimas. Após dois anos de convivência, durante os quais ele me fez conhecer e apreciar Julio Cortazar, de quem era um leitor assíduo, Manolo anunciou que partiria com a tripulação de um navio mercante com destino ao Japão. Na despedida me confiou alguns escritos lacunares que indicavam um veio poético arrebatado e contido ao mesmo tempo. Desde então não tive mais notícias dele. Muitos anos depois, fiquei sabendo que Manolo se envolvera com o contrabando na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, mas seu paradeiro continuava incerto. Só recentemente descobri que voltara a Sacramento e decidi visitá-lo num sítio onde vive agora com Carmencita, sua mulher. Nesse encontro quase não falamos de literatura, mas no final ele me mostrou um poema, que copiei e reproduzo abaixo, que é talvez o retrato maduro e o mais inalcançável desse poeta bissexto e desconhecido.

 

“Así se pasó conmigo.

En las claras mañanas

ya me cobría una extraña

mancha de oscuridad.

Poco a poco en mis ojos

creció la yerma distancia

de los campos no labrados,

la tan difícil hermosura

de los espacios desiertos,

y no quise más que mirarlos

como los mira un caballo o un buey.

Todo el paisaje del Sur se aniñó

en mí: la hierba, el agua, el viento,

yo me puse a escucharlos.

El cielo raso es un techo

de radiosa desolación

pairando sobre mi casa.

Soy un hombre rústico,

me gusta el labor diario

y la muda contemplación

de lo numinoso en lo nimio.

Mi cuerpo sueña por mí.”

30/11/2011 / nolimiar

Identidade

O lugar onde nasci e onde vivo. Fronteira entre as duas línguas que colonizaram os pampas. Fronteira estranha, na qual a paisagem une o que a língua separa, e que levou o gaúcho a se diferenciar em relação ao país, a representar o papel de guardião quando a vastidão do espaço lhe soprava o desejo de se deslocar livremente ou de simplesmente ficar quieto no seu canto.

Nunca me identifiquei com os traços marcados e imperativos da cultura gaúcha. Meus pais não tinham o hábito do chimarrão e Porto Alegre já é uma cidade com ares cosmopolitas. Mas a ideia de fronteira me acompanha e me inspira, mesmo sendo simples lugar de passagem. Não me ufano de ser gaúcho (como tampouco de ser brasileiro), apenas aceito e acho bom viver aqui (apesar do frio), e confesso que me identifico profundamente com as paisagens deste lugar (mesmo suas praias monótonas) que me transmitem desde a infância um sentimento inexplicável de beleza.

28/11/2011 / nolimiar

Viagem virtual

Entro num programa do Google Maps que permite viajar por dentro de cidades distantes. Passeio pelas ruas de Praga, onde nunca estive. Só eu me locomovo, as pessoas e as coisas estão imóveis como à minha espera. É uma viagem sem cheiros, sem sol nem vento, mas a simples experiência de ver é fascinante e perturbadora, como a de percorrer quadros num museu (e neles também não há cheiros, nem sol nem vento, mas sentimos às vezes algo de mágico que nos emociona). Isso já havia acontecido com a fotografia e o cinema: o Google apenas multiplica e acelera essa desterritorialização do olhar (o próprio Google, empresa sem sede nem lugar, que não se sabe onde armazena seus fantásticos dados de memória). Ouvi dizer que esse mapeamento está sendo feito agora nas principais capitais brasileiras. Em breve não precisaremos mais sair de casa? Seremos apenas olhos que viajam virtualmente? Mas é o que já nos acontecia antes do Google, é o que nos acontece sempre nos sonhos: em algum momento acabamos por despertar.

25/11/2011 / nolimiar

Noite do prazer

Essa canção me cativa desde que a escutei a primeira vez nos anos 1980. Ainda hoje tocada em festas e mesmo no rádio, sua permanência se deve, me parece, a uma célula rítmica contagiante que se propaga a partir do nome do seu inspirador, B.B.King, como diz o refrão: “Na madrugada a vitrola rolando um blues / tocando B.B.King sem parar”. Longe de ser apenas uma citação, esse nome soa aos meus ouvidos como a base que determina a própria levada da música. E essa levada, com seu delicioso suingue, anima uma conversa, um encontro no qual parceiros e frases pulsam na mesma sedução (Um brinde ao destino / Será que o meu signo tem a ver com o seu? / Vem ficar comigo depois que a festa acabar…). Conversa dos sons e dos corpos, Noite do prazer é feita para se deixar levar, ouvir e dançar. (Dou aqui a versão original gravada pelo efêmero grupo Brylho, não outra mais recente, remixada, que destrói completamente a graça dessa música.)

23/11/2011 / nolimiar

No ônibus, 5

Mais uma vez transportado, no ônibus urbano, a um estado de pura fruição sensível, absorto num perfume de jasmim. De onde ele vem? Dessa mulher sentada ao meu lado e que olha para fora? Ela parece também se entregar a esse limiar, a esse estado flutuante, transitório, que acontece no trânsito quando um coletivo nos transporta.

21/11/2011 / nolimiar

Do Diabo e da sorte

Entre as inúmeras denominações do Diabo (belzebu, capeta, cão, cujo, demo, tinhoso etc. etc.) figura a de rabudo. O termo denota “o de rabo comprido”, propriedade que por metonímia designa o Diabo, donde a conotação de rabudo como “sujeito malvado, cruel”. Mas, curiosamente (por um lapso diabólico?), os dicionários Aurélio e Houaiss não consignam uma acepção de rabudo muito mais disseminada: a de “sortudo”, que suponho também derivada do Diabo e do seu rabo comprido, visto agora como uma propriedade anômala e rara como a sorte. Rabudo-sortudo conotaria não mais o Diabo-Maligno, mas o Diabo-Imprevisível que comporta, como em toda imprevisibilidade, um elemento de sorte. Acontece que sorte é também uma palavra ambivalente, podendo designar tanto o acaso feliz quanto o azar, a má fortuna. Palavra diabólica que se instalou até mesmo numa locução aparentemente inócua – de sorte que…