Skip to content
18/12/2011 / nolimiar

Um retrato

A foto é de 1960. Ainda éramos todos jovens e formávamos um conjunto desigual, nas idades, nas atitudes, na maneira de cada um reagir ao fato de ser fotografado. Ainda não havia a intenção de nos apresentarmos como um grupo, que fotos similares, posteriores, sugerem. Estávamos ali reunidos diante dos nossos pais, provavelmente, sem imaginar que a nossa imagem estava sendo retida para ficar guardada e esquecida por anos a fio, e que um belo dia a descobriríamos com surpresa, os olhos de antes coincidindo por um instante com os de agora. De certo modo, é essa encantadora ilusão que nos une e que faz esse retrato, distante no tempo, se prolongar no tempo – o retrato dos sete irmãos.

Anúncios
16/12/2011 / nolimiar

Mil imagens

A imagem nasce quando uma criança no berço aprende a coordenar os olhos e as mãos e passa a focalizar um objeto, para depois reconhecer quando ele aparece e desaparece, criando assim uma primeira sintaxe com objetos que causam satisfação, medo, ansiedade etc., antes de haver palavras com que designá-los.

Imagens são sedimentos de experiências impregnadas de afetos. É por serem produzidas de corpo inteiro que se diz que uma imagem vale por mil palavras. Mas o essencial da imagem é que ela contém este apelo de toda criatura: Olhe para mim!, que é um chamado a olhar mais fundo, com os olhos da poesia. Porque nas palavras se transfiguram, se condensam mil imagens.

13/12/2011 / nolimiar

Pot-pourri (para Mirian)

quando eu vi

você parecia vir a ser…

 

como que tocada assim de leve pluma

revelando-se na bruma da manhã…

 

contigo eu vou ao léu

a estrada o céu azul

verde a perder de ver…

 

vejo teu passo na correnteza

deixando um rastro só de beleza…

 

com cantar fiz do tempo um castelo de amor

pra nós dois, mesmo que meu motivo não soubesses…

 

luz de poesia

razão do meu erro

meu berro na escuridão…

 

no eterno movimento da separação e do encontro…

 

algo em nós já se despedia

mas querendo voltar

junto com o sol

outro dia…

 

andar onde eu quiser

querendo a tua companhia…

 

eu jogo ao fogo todo o meu sonhar

e o cego amor entrego ao deus-dará…

11/12/2011 / nolimiar

Feito pra caber no mar

Releio a Experiência de Ralph Valdo Emerson, poeta e ensaísta americano (1803-1882), e retenho, entre as muitas passagens desse pequeno ensaio escritas com tanta sabedoria, apenas esta que me toca mais particularmente: “Fica sabendo que tua vida é um estado fugidio, uma tenda para uma noite, e, com ou sem saúde, termina tua tarefa. Estás enfermo e não ficarás pior, e o universo, que te quer bem, ficará melhor. (…) Que baste, para a alegria do universo, que não tenhamos chegado a uma parede, mas a intermináveis oceanos.” Sim, Emerson, sim, queridos parceiros Marcelo e Zé Miguel: a gente é feito pra acabar, a gente é feito pra dizer que sim, a gente é feito pra caber no mar e isso nunca vai ter fim…

09/12/2011 / nolimiar

O cheiro da amendoeira

Drummond criou a expressão “fala, amendoeira”, à qual Guimarães Rosa retorquiu com “cala, amendoeira”. Mas o que sempre me tocou, antes de conhecer o tema, antes mesmo de identificar essa árvore, também chamada chapéu-de-sol, é o cheiro dela. Cheiro que de início eu nem sequer associava a uma árvore, mas a alguma emanação misteriosa da terra. Porque a amendoeira, comum em cidades litorâneas tropicais como Rio de Janeiro e Santos, é rara em Porto Alegre. E mais raro ainda é localizá-la quando, só de vez em quando, exala.

Acontece no verão ou em dias quentes. Vou andando pela rua e de súbito o cheiro vem (de onde? de perto? de longe?) e me impregna com seu teor de resina, que não sei se é da folha, do tronco ou do fruto. Olho ao redor e não vejo a árvore. Mas imediatamente reconheço esse cheiro a uma só vez terroso, tenaz, indomesticável. Aspirá-lo é sentir um quê de selvagem no ar civilizado. Assim: feito a fórmula química de uma experiência total e única, quase inacessível às palavras, pura sensação e pura evocação, que fala e cala. E experiência sempre breve, da qual espero apenas que volte a acontecer.

07/12/2011 / nolimiar

Dezembro

Alta luz, nuvens palpáveis, o cheiro e o sabor da manga, do melão gaúcho. E o canto matutino da cigarra anunciando o fim das aulas, o tempo todo para os brinquedos. É assim que os meus sentidos reconheciam e reconhecem ainda este mês, quando o ano parece atingir o esplendor antes de morrer.

05/12/2011 / nolimiar

Pange, lingua

Comentando os sentidos do verbo latino pangere (fincar, pregar, prometer, ajustar, convencionar, passando daí a escrever, consignar, louvar, sentidos de que derivam pagus, o limite fixado na terra e a página, e também paganus, o aldeão e o pagão), Michel Serres observa que esta frase de um hino medieval – Pange, lingua, gloriosi corporis mysterium (Canta, ó língua, o mistério do corpo glorioso) – começa com uma declaração pagã que vem antes da língua, antes do Verbo que revestiu universalmente as páginas, fazendo a paisagem e o pago recuarem a um lugar anterior à língua, lugar da antiguidade propriamente. Mas hoje começamos a perder a linguagem na codificação da ciência, diz ele, e “a antiguidade [dos sentidos, da paisagem] volta a aparecer sob o revestimento transparente do Verbo”.